Roupa e arte sem embaraços

Há uma ave de nome alfaiate. Mora perto do raso e veste uma plumagem clássica de preto no branco. Para comer, espeta de leve as faíscas d’água. O bico longilíneo e curvado para cima, diriam os evolucionistas, é próprio para a alimentação. Se fosse por culpa do tempo, contudo, o bico já teria sumido. O alfaiate por inteiro não restaria em uma só pena. Não restaria em um só pano. Escrevo, por ora, do alfaiate cujo bico é a longilínea e talvez curva agulha — e este também existe. O alfaiate da costura junta ponto-cruz e cruz em ponto desde que o ser humano descobriu-se nu. Descoberto o homem não ficaria, pelo não queria assim o alfaiate. Daí partem os dois pela roca da história. Um resolveu que queria ser elegante, diferente, singular. O outro, muito além da ave procurando em poças, encontrou a tesoura para o corte preciso; a fita para a medida única; o dom para dar ao tecido forma e função: é a roupa.

Nesta conversa de vestir, o alfaiate preferiu continuar discreto, como se estivesse de preto ou branco. Surge, então, a moda — aparecida ela, mesmo que seja minimalista. Do mesmo jeito são as cores de uma arara ou um tucano. É tudo vibrante, (auto-)inovador, cheio de uma ânsia por interpretação. Estilo, design, customizar são palavras que se desenrolam num novelo infindável. Neste emaranhado, enfim, chega-se ao nó cego: crer não há laço entre a moda e alfaiataria. Ora, moda e alfaiataria são bichos diferentes de uma mesma espécie. Em ambos há o gosto por criar uma nova pele para o homem e para a mulher. Cada qual seguindo uma linha de método e execução, por vezes de enorme distância, vide a figura do bespoke e da produção em série. Por outro lado, ou melhor, do avesso, é inevitável dizer que existem interfaces nestas linhas. Alfaiataria e moda podem chegar a uma sutura que termina em criações dignas de uma galeria de arte.

Este espaço agora é concedido. O Centro Universitário Belas-Artes junto da curadoria de Penha Maia promovem a exposição “O alfaiate a ofício da moda”. Nela estarão à mostra roupas e acessórios frutos da parceria do alfaiate David Gustavo Fuckner e de estilistas como Alexandre Herchcovitch, André Lima, Isabela Capeto, Jum Nakao e Simone Nunes. Sempre preocupado em “traduzir o que o estilista quer fazer”, o alfaiate prova que é possível criar peças em larga escala conservando a essência da idéia e do artesanal. Sr. David, como é conhecido, parte da opinião de que não há como negar a evolução, encarada aqui como um traço dentre os tantos em que pode se perpetuar a alfaiataria. Para todo e qualquer alfaiate, inclusive para aqueles que voam, diriam os evolucionistas que isso é a mais tecida verdade — e não é ponto sem nó.

Felipe Maia Ferreira
São Paulo, 26 de setembro de 2008